quinta-feira, 1 de julho de 2010

TRÓIA

Rating:★★★★
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A LENDA :
Paris, filho do Rei Príamo de Tróia, havia raptado a mais esplêndida mulher do mundo, a formosa Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta. Disposto a vingar o ultraje, este reúne todos os gregos num poderoso exército, cujo comando cabe a Agamenon, rei de Micenas e irmão mais velho de Menelau, no qual destacam-se os mais famosos heróis da época: o invulnerável Aquiles e o astucioso Ulisses (Odisseu para os gregos). A legião de Agamenon atravessa o mar Egeu com uma frota de mais de mil navios. O cerco a Tróia durará dez anos, sucedendo de parte a parte grandes feitos heróicos, até que os gregos, sob inspiração de Ulisses, constroem um gigantesco cavalo de madeira e o abandonam perto das portas de Tróia, fingindo uma retirada. Como consideram o cavalo um animal sagrado, os troianos recolhem o presente. Apesar dos pressentimentos de Cassandra (filha de Príamo), os troianos introduzem na cidade o gigantesco animal, que trazia oculto em seu ventre os guerreiros de Ulisses. Abertas as portas, os gregos investem, sendo Tróia completamente saqueada e destruída. Príamo é morto em seu altar, o bebê de Heitor é jogado da sacada da muralha e morto, e Cassandra é estuprada. O herói troiano Enéias, filho de Vênus, escapa com alguns partidários e depois de muitas aventuras se instalará no Lácio, dando origem ao povo Romano.
ARQUEOLOGIA:
Heinrich Schiliemann, entre 1870-90, identificou o local da antiga Tróia com a colina de Hissarlik e ali descobriu sete cidades superpostas. Wilhelm Dörpfeld, que o auxiliava desde 1882, prosseguiu as escavações no período de 1893-94 e conseguiu reconhecer os restos de mais duas cidades. A existência destas nove cidades superpostas foi confirmada pelos cuidadosos estudos de Carl W. Blegen, americano da Universidade de Cincinnati, entre 1932-38, que nelas distinguiu 46 estratos construtivos agrupados em nove períodos. Tróia I, a mais antiga, é um pequeno recinto fortificado com menos de 50 m na parte mais larga, datada de 3000 a 2600 a.C., 1ª fase do Bronze Antigo. Tróia II, ainda bem pequena, fortificada, com uns 100 m de extensão máxima, seria mais um castelo, simples, porém rico; foi destruída pelo fogo cerca de 2300 a.C., nela foi descoberto um tesouro de jóias e objetos preciosos que Schilemann, pensando tratar-se da Tróia homérica, denominou tesouro de Príamo. Tróia III, IV e V foram pequenas cidades de mera importância local, entre 2300 a 1900 a.C. quando ali termina o Bronze Antigo. Tróia VI, já bem mais importante e rica, começa pouco antes de 1725 a.C., sendo destruída por um terremoto cerca de 1275 a.C. De suas ruínas, surge Tróia VII-a, a verdadeira Tróia épica, destruída por inimigos cerca de 1200 a.C. Tróia VIII é da época clássica da Grécia. Tróia IX pertence ao período helenístico-romano, quando Alexandre nela sacrifica a Aquiles, de quem julgava ser descendente; Lúcio Cipião, Sila, Augusto e Caracala entre outros, a protegeram e beneficiaram. A partir do séc. IV d.C. desapareceram completamente os vestígios históricos da cidade.


É quase certo que a lenda possui um núcleo de verdade, mas é impossível provar-lhe a historicidade. A mais recente interpretação dos documentos hititas pertinentes (1957), favorece a hipótese de que os Ahhiyawa (Aqueus ? ) fossem um povo proto-grego vindo da Europa que, da região e na época de Tróia VI, tivesse enxameado pelo Egeu formando colônias de micenianos. Seria assim dessas colônias, que teriam partido os conquistadores de Tróia VII-a ? Mas, nessa época, as freqüentes migrações de povos tornam o problema insolúvel.
O responsável por acabar com as dúvidas foi o alemão Manfred Korfmann, que comanda atualmente os trabalhos em Hissarlik. O arqueólogo, nos últimos 20 anos, reuniu inúmeras provas de que Schliemann estava certo. Hoje, poucos duvidam de que a localidade descoberta seja Tróia. Recentemente, Korfmann refutou mais um argumento da corrente de historiadores que ainda alimenta desconfianças em relação ao achado. É que em Ilíada, Homero retrata Tróia como sendo uma cidade portuária, a apenas a 600 metros de distância do mar. O problema é que Hissarlik fica a seis quilômetros da praia mais próxima. O argumento dos céticos caiu por terra depois que Korfmann realizou escavações em grandes profundidades e descobriu fósseis marinhos nos arredores, exatamente a uma distância aproximada de 600 metros de Tróia. Com isso, provou que o mar já estivera bem perto da cidade e, ao longo dos anos, recuou. Por sinal, este seria o motivo da decadência da nona Tróia, que havia perdido sua importância estratégica como cidade portuária do Mediterrâneo.
O fato de Tróia ter realmente existido, entretanto, não significa que a cidade esteve envolvida numa guerra contra os gregos, pelo menos não num embate grandioso como o narrado por Homero. Tróia realmente era uma cidade fortificada, cercada por altas muralhas e trincheiras. Isto indica, acredita Korfmann, que houve a necessidade de se proteger de possíveis inimigos ao longo dos anos. Ossadas com indícios de morte violenta também foram achadas, o que contribui para confirmar a tese. Além disso, também foram descobertas pontas de lanças e flechas enterradas nos vãos das muralhas, o que indica que Tróia esteve sob ataque. Mas as evidências encontradas até o momento apontam para combates bem menores do que os descritos por Homero. E, possivelmente, tais enfrentamentos teriam sido motivados por interesses financeiros e não por ciúmes. Outro ponto que ajuda a embasar a idéia de que a Guerra de Tróia não aconteceu é a ausência de indícios arqueológicos dos regimentos gregos nas proximidades. Se eles realmente tivessem mantido um cerco de tão longa duração em volta de Tróia, teriam de haver resquícios arqueológicos de seus acampamentos nos contornos da cidade. Tais refugos, no entanto, nunca foram encontrados.



HOMERO
A Grécia é conhecida por ser um dos berços da civilização ocidental. Aos gregos são atribuídas realizações fabulosas nas áreas da filosofia, das artes plásticas, da literatura, da música, do teatro, da política, da ciência e da organização das cidades. Entretanto, a mitologia está entre as suas maiores contribuições e influencia toda a arte e a filosofia ocidentais, fornecendo-lhe os mitos e arquétipos básicos.
As mais conhecidas narrativas da mitologia grega estão contidas nas duas grandes obras de Homero, a Ilíada e a Odisséia. A Ilíada é uma história de guerra e a Odisséia é uma história de viagens. Nela, Homero relata as aventuras de Odisseu (Ulisses) após a Guerra de Tróia. Durante dez anos o herói tenta retornar a Ítaca, seu reino, onde ansiosamente o aguardam o pai Laerte, a esposa Penélope e o filho Telêmaco; numerosas aventuras, porém, retardam sua volta.

Homero era o último descendente de uma linhagem de poetas orais. Conta-se que a história da guerra de Tróia foi contada em forma de música épica sobre as grandes batalhas e heróis durante 500 anos até a invenção do alfabeto grego, sendo passada de geração em geração. Os textos da Ilíada são também os primeiros do alfabeto grego

Embora os antigos gregos atribuíssem a Homero a autoria da Ilíada e da Odisséia não há nenhuma evidência de que ele tenha existido realmente. Estudos recentes situam a data de composição por volta de 750 a.C., e o uso predominante do dialeto iônico sugere que seu autor era proveniente das ilhas do Egeu ou da costa da Ásia Menor. A lenda de que Homero era cego e analfabeto não tem, também, qualquer fundamento histórico.
A ILÍADA
O único registro da guerra de Tróia, conflito de proporções colossais encontra-se presente nos quase 16 mil versos da obra Ilíada. Trata-se de um relato tardio. Acredita-se que Homero – que viveu por volta do século VIII a. C.- tenha escrito cerca de 400 anos após a queda de Tróia. Como a história e seus personagens já eram, em seu tempo, bastante conhecidos, o poeta não oferece qualquer introdução ao conflito. O primeiro canto da Ilíada trata da rixa entre os dois maiores heróis gregos: Aquiles e Agamenon, já ao final do nono ano e, portanto quase no fim do combate.






Fonte de inspiração para um sem-número de autores e poetas, o estilo de Homero é inconfundível. Dispostos em 24 cantos magníficos, os milhares de versos do poema são o testemunho de uma cultura de tradição oral. Heróis, deuses, sentimentos e idéias misturam-se em uma atmosfera mítica e instigante.

Outro fato desconhecido do grande público e, mesmo polêmico entre os estudiosos, é o verdadeiro objetivo de Homero ter escrito a Ilíada. O rapto de Helena pelo príncipe de Tróia, Páris, é apontado como o principal motivo da guerra, assim como a destruição da cidade de Ílion (nome original de Tróia), o seu desfecho. No entanto, o "olhar homérico" volta-se quase que exclusivamente para a ira do herói grego Aquiles.
A ODISSÉIA
A Odisséia foi composta provavelmente um pouco depois da Ilíada. O título do poema deriva do nome do principal protagonista, Odisseu, herói grego mais conhecido entre nós pelo nome romano, "Ulisses".
A exemplo da Ilíada, a Odisséia se baseia em longa tradição oral e assumiu forma escrita somente no fim do século VI.
A Odisséia, de Homero, expressa com força e beleza a grandiosidade da remota civilização grega. Datada provavelmente do século VIII a.C., quando os gregos, depois de um longo período sem dispor de um sistema de escrita, adotaram o alfabeto fenício. Na Odisséia repercute ainda o eco da guerra de Tróia, narrada na Ilíada.
Ulisses, filho e sucessor de Laerte, rei de Ítaca e marido de Penélope, é um dos heróis favoritos de Homero e já aparece na Ilíada como um homem perspicaz, bom conselheiro e bravo guerreiro. A Odisséia narra as viagens e aventuras de Ulisses em duas etapas: a primeira compreende os acontecimentos que, em nove episódios sucessivos, afastam o herói de casa, forçado pelas dificuldades criadas pelo deus Posêidon. A segunda consta de mais nove episódios, que descrevem sua volta ao lar sob a proteção da deusa Atena. É também desenvolvido um tema secundário, o da vida na casa de Ulisses durante sua ausência, e o esforço da família para trazê-lo de volta a Ítaca. A Odisséia compõe-se de 24 cantos em verso hexâmetro (seis sílabas), e a ação se inicia dez anos depois da guerra de Tróia, em que Ulisses lutara ao lado dos gregos.
É consenso na era moderna que a Odisséia completa a Ilíada como retrato da civilização grega, e juntas, as duas testemunham o gênio de Homero e estão entre os pontos mais altos atingidos pela poesia universal.


AQUILES:
Herói grego, filho de Peleu e da ninfa marinha Tétis. Relata o mito que Zeus ambicionara Tétis, mas ao saber que a nereida daria à luz a um filho superior ao pai, cedeu-a a um mortal. Como as Parcas (divindades que representavam o poder do destino) prognosticassem que o filho morreria cedo, Tétis mergulhou-o nas águas do Lago Estige para torná-lo invulnerável. Realmente, todo o corpo, exceto o calcanhar por onde o segurou, adquiriu invulnerabilidade. Aquiles se tornou um jovem belo e forte, o mais veloz nas corridas. Ao eclodir a Guerra de Tróia, temendo pela vida do filho, Tétis escondeu-o na corte de Licomedes, em Esciros, mas o ardiloso Ulisses, fingindo-se de mercador de jóias e armas, apresentou-se na referida corte.
Sendo identificado, tal a sua experiência no manejo de armas, Aquiles marchou com os gregos sobre Tróia e tornou-se o mais famoso dos guerreiros. No décimo ano da luta, capturou a jovem Briseida, que lhe foi arrebatada por Agamenon, chefe supremo dos gregos. Aborrecido com essa afronta, retirou-se da guerra. Sentindo a falta de seu valioso auxílio, conseguiram os gregos persuadi-lo a ceder sua armadura e aos seus guerreiros, os mirmidões, ao seu amigo Pátroclo. Este, porém foi morto por Heitor, que se apoderou de sua armadura.
Sedento de vingança, Aquiles reconcilia-se com Agamenon. De armadura e escudos novos, forjados por vulcano, retornou à luta, matou Heitor, o campeão de Tróia, filho primogênito do Rei Príamo, e arrastou o seu cadáver pela cidade, profanando o seu corpo e colocando-o em torno da sepultura do amigo. Quando o velho rei Príamo veio lhe pedir o corpo do filho, Aquiles, compadecido, atendeu ao seu pedido. Pouco depois, Apolo(deus grego das profecias, da medicina e da música, arqueiro-mestre e excelente corredor, filho de Zeus e Leto, filha de um titã) revela a Páris a fraqueza secreta do guerreiro Aquiles. Sabendo desse segredo, ele estica o arco e, com a mão guiada por Apolo, faz pontaria no calcanhar do herói aqueu. Atingido por uma flecha envenenada, Aquiles cai e morre.



A megaprodução cinematográfica norte-americana de 250 milhões de dólares (extra-oficial), Tróia, em cartaz nos cinemas em todo o país, traz de volta a lendária história de amor, traição, honra, sangue, guerra, heróis e ruína.

Tróia, uma civilização rica e próspera o suficiente para se defender de seus inimigos, mas que sucumbiu graças ao rapto da mais bela mulher do mundo, Helena, a obsessão de Agamenon por poder e a persistência do astuto herói grego Ulisses, que pacientemente arquitetou o plano do Cavalo de Tróia, o gigantesco animal de madeira que é oferecido como presente aos troianos.

Essa conhecida narrativa sobre a Guerra de Tróia é considerada a mais lendária de todos os tempos. Sendo a referida guerra, a primeira da história do ocidente.

Graças a Homero, considerado o pai da literatura ocidental, autor das primeiras obras literárias da antiga Grécia, a Ilíada e a Odisséia, temos a oportunidade de conhecer esta fabulosa lenda que apresenta relatos que podem ser verdadeiros.

Tróia realmente existiu? Os antigos historiadores como Heródoto e Tucídides sempre acreditaram na Guerra de Tróia. Atualmente o arqueólogo alemão Manfred Korfmann, que desde 1982 está à frente dos trabalhos em Hissarlik, na Turquia, afirma ter encontrado as ruínas da cidade que era o centro comercial da Era do Bronze (leia mais em arqueologia).

TRÓIA:

Cidade proto-histórica, famosa na literatura e na lenda, identificada com uma das noves cidades superpostas descobertas na colina de Hissarlik, no extremo noroeste da Anatólia, dominando o Helesponto (Estreito de Dardanelos, na costa noroeste da Turquia). Seu interesse arqueológico é sobrepujado pela sua importância literária. A guerra que lhe causou a destruição está narrada na Ilíada, os mais antigos poemas épicos do ocidente, escritos antes de 750 a.C. e que se atribui a Homero. Este poema foi o primeiro do Ciclo Troiano - nome tradicional do complexo conjunto de lendas relacionadas à conquista e destruição da cidade de Tróia (ou Ílion, daí o nome Ilíada) por uma coalizão dos povos helênicos que prolonga na Odisséia, também atribuído a Homero, mas de composição posterior; ressurge na Eneida, de Virgílio, que conta a viagem de Enéias, de Tróia à Itália, passando por Creta, pelo Epiro, pela Sicília, por Cartago e novamente pela Sicília; e através de poetas como Dictys Cretensis, pseudo-historiadores como Dares e do escritor bizantino Joannes Tzetzes, refloresce no Ocidente Medieval com o “Romance de Troe” de Benoit de Saint-More(1184).






O FILME:

Uma guerra em nome do amor? Ou será que a traição da majestosa Helena com o seu amante Páris e a sua fuga é apenas um pretexto para o rei Agamenon de Micenas, Grécia, conquistar Tróia com o objetivo de expandir seu poder e riqueza?

Tróia sempre foi cobiçada por seus inimigos. Rica e próspera, era o centro mercantil mais importante da época. Invejada por muitos reis ambiciosos. O duelo entre as duas importantes civilizações que aprendemos na escola, está ainda mais interessante exibido na grande tela.


O diretor alemão Wolfgang Peterson (de “Mar em Fúria”) traz ao público um espetáculo de imagens, efeitos e fotografia somado a um elenco de primeira. Atores veteranos consagrados como Peter O´Toole (Lawrence da Arábia, 1962 e premiado com o Oscar de honra, em 2003, pelo conjunto de sua obra), e Julie Christie ( Doutor Jivago, 1965), o galã Brad Pitt, que interpreta muito bem o semi-deus Aquiles, a lindíssima ex-modelo alemã Diane Kruger(Helena), os jovens e talentosos Orlando Bloom( Piratas do Caribe - A Maldição da Pérola Negra, 2003) no papel de Páris e Eric Bana ( Hulk, 2003), que convence como o justo e honrado príncipe Heitor, os ótimos Brian Cox ( X-Man 2, 2003), como Agamenon, e Brandon Gleeson (Cold Mountain, 2003), como Menelau, entre outros.

A cena em que o rei Príamo (Peter O´Toole) pede a Aquiles(Brad Pitt) que lhe entregue o corpo de seu filho Heitor(Eric Bana) é comovente. A luta entre Heitor e Aquiles emociona, principalmente quando no final o guerreiro mata seu rival e arrasta o seu corpo, que é puxado por sua carruagem, diante do olhar estupefato de sua família. A cidade de Tróia reconstituída no filme é monumental. Apesar de algumas adaptações Hollywoodianas, a produção está fiel à obra de Homero.

É um filme obrigatório, suntuoso, rico em detalhes e tecnicamente perfeito.

CURIOSIDADES:

1. Tróia foi filmada no México e em Malta;

2. Inicialmente as filmagens de Tróia estavam previstas para ocorrer no Marrocos mas, devido à ameaça de guerra no Iraque, foram transferidas para o México;

3. Durante cinco meses o elenco e a equipe enfrentaram dois furacões, reconstituíram do zero cenários destruídos, atravessaram greves de 150 halterofilistas búlgaros( que foram contratados para os closes nas cenas de batalha), esperaram pacientemente que membros de organizações ambientais retirassem milhares de exemplares de cactos raros, um a um, de uma praia mexicana;

4. Brad Pitt sofreu uma lesão no tendão de Aquiles, adiando por três meses a filmagem de uma cena crucial;

5. O diretor Wolfgang Petersen desistiu de “Batman vs. Superman” para dirigir Tróia;
6. O ator Brad Pitt desistiu de estrelar “The Fountain” para atuar em Tróia;
7. As atrizes Julia Roberts, Claire Forlani e Alice Braga estiveram cotadas para interpretar a personagem Helena em Tróia;

8. Ainda na era do cinema mudo, existem registros de produções com o tema de Tróia, como: “Caduta Tróia”(1910), uma produção italiana; “ Helena” ( 1924), feito na Alemanha, e “Private Life of Helen of Troy” (1927), norte- americana, que são considerados os primeiros filmes realizados;

9. A mais famosa das adaptações, “Helena de Tróia”, continua sendo a que Robert Wise (de “Amor Sublime Amor”, 1961 e “A Noviça Rebelde”, 1965) dirigiu em 1955 com a bela Rossana Podestá(Sodoma e Gomorra, 1962), como Helena e Jacques Sernas(La Dolce Vita, 1960), como Páris.


FICHA TÉCNICA:

TROY

Diretor: Wolfgang Peterson.
Roteiro: David Benioff, baseado em poema de Homero.
Elenco: Brad Pitt (Aquiles). Orlando Bloom (Páris), Eric Bana (Heitor), Brian Cox (Agamenon), Brendan Gleeson (Menelau), Diane Kruger (Helena), Peter O´Toole ( Rei Príamo), Sean Bean (Odisseu ou Ulisses), Julie Christie(Tétis).
Pordução: Gail Katz, Wolfgang Peterson, Diana Rathbun e Colin Wilson.
Música: James Horner.
Fotografia: Roger Pratt.
Desenho de Podução: Nigel Phelps.
Direção de Arte: Julian Ashby, Jon Billington, Andy Nicholson e Adam O´Neill.
Edição: Peter Honess.
Efeitos Especiais: Cinesite Ltd. / Framestore CFC / Lola / The Moving Picture Company.
Gênero: Ação, épico, drama, aventura.
Duração: 163 minutos.
Estados Unidos/2004.
Warner Bros.


Para saber mais sobre Tróia e a Grécia Antiga:

http://warj.med.br/areas.htm



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Com o lançamento do filme "Tróia" nos cinemas em 2004, as pessoas começam a relembrar a legendária história desta cidade. Muitos porém não sabem que esta cidade fica localizada no território Turco. Tróia foi identificada no final do século XIX por Heinrich Schliemann no monte Hissarlik, na planície dos Dardanelos, na costa noroeste da Turquia. Esta área contém uma sucessão de várias cidades que foram sendo construidas em um mesmo lugar durante séculos, uma destas cidades seria Tróia. Entretanto, a lenda de Tróia é ainda um mistério com poucas possibilidades de ser solucionado pelos arqueólogos, não havendo perigo que o romântico enigma de Tróia seja destruído. Hoje não se vê quase nada da época de glória de Tróia, mas ruinas da cidade podem ser visitadas.

Será que a Guerra de Tróia aconteceu mesmo ? Seja qual for a base histórica, a guerra de Tróia é o episódio isolado mais importante que sobreviveu na mitologia e nas lendas gregas. Alguns eventos que causaram a guerra são conhecidos a partir dos dois grandes poemas Homéricos, a Ilíada e a Odisséia. O termo "Ilíada" origina-se de "Iliás", o que quer dizer "a respeito de Ilion", o nome de uma cidade na costa da Ásia Menor. Na Ilíada há 24 cantos, com 15 mil versos. Ainda que seu argumento seja a Guerra de Tróia, não é uma narração completa do que aconteceu. Trata do segundo ano deste conflito, quando iniciou uma desavença entre Agamenon e Aquiles. O Cavalo de madeira é considerado como sendo idéia de Ulisses, o qual foi composto por um grupo dos mais corajosos gregos. Os troianos acreditavam que se o cavalo entrasse em Tróia, a cidade nunca seria tomada; se ficasse de fora, os gregos acabariam voltando e arrasariam a cidade até os alicerces.


Cavalo de madeira em Troia na Turquia
Você se lembra do apaixonado Paris que trouxe Helena para Tróia ? Páris era filho de Príamo, rei de Tróia. Quando a esposa de Príamo, Hécuba, estava grávida de Páris, sonhou que estava dando à luz a uma tocha na qual surgiam serpentes, assim, quando o bebê nasceu, foi entregue a uma criada com ordens de levá-lo ao Monte Ida e matá-lo. A criada ao invés de matá-lo, o deixou na montanha para morrer. A criança foi salva por pastores e se transformando em um deles. Depois de algum tempo, Páris retornou por acaso a Tróia, onde sua habilidade nas competições atléticas e sua surpreendente bela aparência causaram interesse nos seus pais, que rapidamente estabeleceram sua identidade e o receberam de volta com entusiasmo.

É claro que você se lembra da deslumbrante Helena: Helena era filha de Zeus e Leda. Helena casou com Menelau, rei de Esparta, e na época que Páris veio visitá-los tinham uma filha, Hermíone. Menelau recebeu Páris muito bem em sua casa, mas Páris pagou esta hospitalidade raptando Helena e fugindo com ela de volta a Tróia. A participação de Helena nesta situação é explicada de várias maneiras: foi raptada contra a sua vontade, ou Afrodite deixou-a louca de desejo por Páris ou, a mais elaborada de todas, nunca foi para Tróia, e foi por causa de um fantasma que os gregos gastaram dez longos anos em guerra.



Fotografia aérea de Troia, Turquia



Menelau, marido de Helena convocou todos que podia para ajudá-lo a montar uma expedição contra Tróia, de modo a recobrar sua esposa. O líder da força grega era Agamenon, rei de Micenas e irmão mais velho de Menelau. Os heróis gregos afluíram de todos os cantos do continente e das ilhas para o porto de Áulis, o ponto de reunião a partir do qual planejavam velejar através do Egeu até Tróia. Suas origens e os nomes de seus líderes estão listados no grande Catálogo de Navios próximo ao início da Ilíada.

No filme "Tróia" Brad Pitt é Aquiles. O pai de Aquiles estava relutante em deixar seu jovem filho se juntar à expedição pois eles sabiam ele estava predestinado a morrer em Tróia. Numa tentativa de evitar o destino, o enviaram para Ciros, onde, disfarçado como uma moça, se juntou às filhas do rei, Licomedes. Durante esta estada se casou com uma das filhas, Deidaméia, que lhe deu um filho, Neoptólemo. Ulisses, entretanto, descobriu que os gregos nunca conseguiriam capturar Tróia sem a ajuda de Aquiles; assim foi até Ciros para buscá-lo. Aquiles foi persuadido a acompanhar Ulisses de volta a Áulis, onde a frota estava se preparando para zarpar.

Um detalhe interessante: Aquiles sempre soube que estava destinado a morrer em Tróia, longe de sua terra natal, onde acabou sendo morto por uma flecha, lançada pelo arco de Páris. Tétis, a mãe de Aquiles quis tornar seu filho imortal, e, quando este era ainda um bebê, levou-o ao Mundo Inferior e o imergiu nas águas do rio Estige; isto tornou seu corpo imune aos ferimentos, exceto pelo calcanhar, o qual ela utilizou para segurá-lo, sendo lá que a flecha o acertou. Assim dizemos calcanhar de Aquiles para um ponto fraco.
Agamenon é visto como o mal carater do filme "Tróia". Agamenon era irmão de Menelau, que por sua vez era casado com a bonita Helena. Agamenon cometeu um terrível crime quando, numa briga familiar, serviu a seu próprio irmão Tiestes um prato preparado com membros dos próprios filhos deste. Este ato trouxe uma maldição sobre a casa de Atreu, e o destino esta maldição se realizou quando Agamenon retornou de Tróia. Na ausência de Agamenon por dez anos de Micena, o governo ficou nas mãos de sua esposa Clitemnestra, auxiliada pelo seu amante Egisto, o único filho sobrevivente de Tiestes. Ao retornar de Tróia, Agamenon foi morto violentamente com um machado por Clitemnestra. Os motivos dela para tão brutal assassinato eram complexos, mas parece que não era tanto devido a sua reprovável paixão por Egisto e o desejo de vingar o malfeito a seu pai e irmãos, mas o seu próprio ódio por Agamenon a levou a fazê-lo. Agamenon tinha assassinado brutalmente o primeiro marido e os filhos de Clitemnestra ante os olhos dela; também tinha sacrificado a filha deles Ifigênia em Áulis. Ela desejava vingança.

Taça de ouro com 20 cm de comprimento encontrado em Troia, Turquia
Não posso esquecer de citar outras figuras importantes aqui como Heitor, filho mais velho do rei Príamo e da rainha Hécula, de Tróia. Na Ilíada de Homero, Heitor é o maior dos guerreiros de Tróia. Heitor é retratado como um bom homem de família e bravo guerreiro.Como comandante das forças troianas, foi o responsável por resistir ao exército grego por nove anos e finalmente forçar os gregos a voltarem para seus navios.Heitor foi morto por Aquiles vingando a morte de seu amigo Pátroclo que foi morto por Heitor. Aquiles ignorando o pedido de Heitor de que lhe fosse dada uma sepultura, se viesse a morrer, Aquiles amarrou seu corpo a sua carruagem, arrastando-o ao redor dos muros da cidade por várias vezes.

Outra figura importante nessa história é a do rei de Tróia, Príamo. Ele era o pai de 50 filhos, destacando-se o grande guerreiro Heitor, e 50 filhas. Depois que seu filho Heitor foi morto pelo herói grego Aquiles, Príamo foi ao acampamento grego implorar pelo corpo do filho.Aquiles preservou a vida de Príamo e lhe deu o corpo de Heitor para ser enterrado, mas durante o cerco de Tróia, Príamo foi morto pelo filho de Aquiles, Neoptólemo.

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Lenda da origem do Amazonas

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LENDA DA ORIGEM DO RIO AMAZONAS
Há muitos anos, existia na selva amazônica dois noivos apaixonados que sonhavam ser um casal. Ela vestia-se de prata e seu nome era Lua. Ele vestia-se de ouro e o seu nome era Sol. Lua era a dona da noite e Sol era dono do dia.Havia porém, um obstáculo para aquele namoro: se eles se casassem o mundo se acabaria. O ardente amor de sol queimaria a terra toda e o choro triste da Lua toda a terra afogaria.Apesar de apaixonados, como poderiam se casar? A Lua apagaria o fogo? O Sol faria toda a água evaporar?Assim, eles se separaram. Eles nunca puderam se casar. Os noivos ficaram desesperados, a Lua de prata e o Sol de ouro.No desespero da saudade, a Lua chorou durante todo um dia e toda uma noite. Suas lágrimas escorreram por morros sem fim até chegar ao mar. Mas o mar, com tanta água embraveceu-se, ele não queria aceitar tanta água.A sofrida lua não conseguia misturar suas lágrimas às águas bravas do mar. Algo estranho aconteceu. As águas escavaram um imenso vale, serras se levantaram. Um imenso rio apareceu. As lágrimas da lua formaram o rio Amazonas, o rio-mar da Amazônia.
LENDA DA LUA

Lenda da origem da luaManduka namorava sua irmã. Todas as noites ia deitar com ela, mas não mostrava o rosto e nem falava, para não ser identificado. A irmã, tentando descobrir quem era, passou tinta de jenipapo no rosto de Manduka. Manduka lavou o rosto, porém a marca da tinta não saiu. Então ela descobriu quem era. Ficou com vergonha, muito brava e chorou bastante. Manduka também ficou com vergonha pois todos passaram a saber o que ele havia feito. Então, Manduka subiu numa árvore que ia até o céu. Depois, ele desceu e foi dizer aos Jurunas que ia voltar para a árvore e que não desceria nunca mais. Levou uma cotia pra não se sentir muito só. Aí virou lua. É por isso que a lua tem manchas escuras, por causa do jenipapo que a irmã passou em Manduka. No meio da lua, costuma aparecer uma cotia comendo coco. É a outra mancha que a lua tem.
LENDA AMAZÔNICA DO PIRARUCU

Pirarucu era um índio que pertencia à tribo dos Uaiás. Era um bravo guerreiro, mas tinha um coração perverso, mesmo sendo filho de Pindarô, um homem de bom coração, chefe da tribo. Egoísta e cheio de vaidades, Pirarucu adorava criticar os deuses e aproveitou a ausência do pai para tomar índios da sua tribo como reféns e executá-los sem nenhum motivo.Tupã, o deus dos deuses, decidiu puní-lo chamando Pólo para que espalhasse o seu mais poderoso relâmpago. Também convocou Iururaruaçu a deusa das torrentes, e ordenou que provocasse a mais forte tempestade sobre Pirarucu, quando estava pescando com outros índios às margens do Rio Tocantins.O fogo de Tupã foi visto por toda floresta. Pirarucu tentou escapar, mas foi atingido no coraçao por um relâmpago fulminante. Todos que se encontravam com ele correram para a selva assustados. O corpo de Pirarucu, ainda vivo, foi levado para as profundezas do Rio Tocantins e transformado em um gigante e escuro peixe. Acabou desaparecendo nas águas e nunca mais retornou, mas por um longo tempo aterrorizou toda a região.
LARA, MÃE-D’AGUA

A Iara é uma dos mitos mais conhecidos da região amazônica. É uma linda mulher morena, de cabelos negros e olhos castanhos. Exerce grande fascínio nos homens, pois aqueles que a vêem banhar-se nos rios não conseguem resistir aos seus encantos e atiram-se nas águas. Os que assim o faz, nem sempre voltam vivos e os que sobrevivem, voltam assombrados, falando em castelos, séquitos e cortes de encantados. É preciso muita reza e pajelança para tirá-lo do encantamento. Alguns descrevem Iara como tendo uma cintilante estrela na testa, que funciona como chamariz que atrai e hipnotiza os homens. Acredita-se também que ela tem forma de peixe na parte inferior, outros dizem que é apenas um vestido, ou uma espécie de saia, que ela veste por vaidade e para dar a ilusão de ser metade mulher, metade peixe. Em certos locais, dizem que Iara é um boto-fêmea. Ela também encanta os homens e levá-os para o fundo do rio. Em outros lugares dizem ser a própria boiúna (cobra grande).
GUARANÁ

Um casal de índios pertencente a tribo Maués, vivia junto por muitos anos sem ter filhos. Um dia eles pediram a Tupã para dar a eles uma criança para completar suas vidas. Tupã, sabendo que o casal era cheio de bondade, lhes atendeu o desejo dando a eles um lindo menino. O tempo passou e o menino cresceu bonito, generoso e querido por todos na aldeia. No entanto, Jurupari, o deus da escuridão e do mal, sentia muita inveja do menino e decidiu matá-lo. Certo dia, o menino foi coletar frutos na floresta e Jurupari se aproveitou da ocasião para lançar sua vingança. Ele se transformou em uma serpente venenosa que atacou e matou o menino. A triste notícia se espalhou rapidamente. Neste momento, trovões ecoaram e fortes relâmpagos caíram pela aldeia. A mãe, que chorava em desespero, entendeu que os trovões eram uma mensagem de Tupã, dizendo que deveriam plantar os olhos da criança e que deles uma nova planta cresceria dando saborosos frutos. Assim foi feito e os índios plantaram os olhinhos da criança. Neste lugar cresceu o guaraná, cujas sementes são negras rodeadas por uma película branca, muito semelhante a um olho humano.
CURUPIRA

Guardião das florestas e dos animais, o Curupira é um pequeno ser com traços de índios, cabelo de fogo e os pés virados para trás que possui o dom de ficar invisível. Dizem que é o protetor daqueles que sabem se relacionar com a natureza, utilizando-a apenas para a sua sobrevivência. O homem que derruba árvores para construir sua casa e seus utensílios, ou ainda, para fazer o seu roçado e caçar apenas para alimentar-se, tem a proteção do Curupira. Mas aqueles que derrubam a mata sem necessidade, os que caçam indiscriminadamente, estes têm no Curupira um terrível inimigo e acabam caindo em suas armadilhas. Para se vingar-se, o Curupira se transforma em caça, uma paca, onça ou qualquer outro bicho que atraia os caçadores para o meio da floresta, fazendo-o perder a noção de seu rumo e ficar dando voltas no mato, retornando sempre ao mesmo lugar. Outra forma de atingir os maus caçadores é fazendo com que sua arma não funcione ou fique incapaz de acertar qualquer tipo de alvo, principalmente a caça. Na realidade, a lenda do Curupira revela a relação dos índios brasileiros com a mata. Não é uma relação de exploração, de uso indiscriminado, mas de respeito pela vida.
COBRA-GRANDE
A Cobra grande é uma lenda amazônica que fala de uma imensa cobra, também chamada Boiúna, que cresce de forma desmensurada e ameaçadora, abandonando a floresta e passando a habitar a parte profunda dos rios। Ao rastejar pela terra firme, os sulcos que deixa se transformam nos igarapés. Conta a lenda que a cobra-grande pode se transformar em embarcações ou outros seres. Aparece em numerosos contos indígenas. Um deles conta que em uma certa tribo indígena da Amazônia, uma índia, grávida da Boiúna, deu à luz a duas crianças gêmeas. Uma delas, má, atacava os barcos, naufragando-os. Esta história tornou-se célebre no poema Cobra Norato, de Raul Bopp, sendo encenado inclusive, em teatros de vários países. A verdadeira cobra grande

A sucuriju é a temida anaconda da Amazônia: seu comprimento pode atingir mais de 10 metros. Mata suas presas por constrição, apertando-as até a morte. Celebrizada nos filmes de terror, é temida pela população ribeirinha, pois habita as áreas inundáveis e é dotada de grande força, sendo capaz de neutralizar qualquer tentativa de defesa da vítima.

MITOLOGIAS - Folclore Brasileiro, Mitologia Tupi Guarani

http://www.espiritualismo.hostmach.com.br/mitologias.htm
Folclore Brasileiro:


O folclore brasileiro é um conjunto de mitos, lendas, usos e costumes transmitidos em geral oralmente através das gerações com a finalidade de ensinar algo, ou meramente nascido da imaginação do povo. Por ser o Brasil um país de dimensões continentais, possui um folclore bastante rico e diversificado e suas histórias enaltecem o conhecimento popular e encantam os que as escutam.

O folclore brasileiro e a cultura erudita
O folclore brasileiro, apesar de ter raízes imemoriais, só começou a receber a atenção da elite nacional em meados do século XIX, durante o Romantismo. Naquele momento, acompanhando uma onda de interesse pela cultura popular que crescia na Europa e nos Estados Unidos, alguns estudiosos brasileiros como Celso de Magalhães e Sílvio Romero passaram a pesquisar as manifestações folclóricas nativas e publicar estudos sistemáticos [1]. Ao mesmo tempo, diversos artistas cultos passaram a empregar elementos da cultura popular na criação de obras destinadas aos círculos ilustrados, como parte de um projeto, estimulado e desenvolvido pelo governo de Dom Pedro II, de construção de um corpo de símbolos nacionalistas que poderia contribuir para a afirmação do Brasil entre as nações civilizadas. As classes superiores nunca foram inteiramente livres da influência da cultura popular, mas obras como por exemplo Juca-Pirama, de Gonçalves Dias, e a música de Luciano Gallet e Alexandre Levy deram a temas do folclore brasileiro um papel de destaque na arte culta, e desde então o interesse pelo assunto só cresceu, e em várias frentes, dando origem a numerosas obras de arte, estudos literários e pesquisas científicas, com vasta bibliografia local e atraindo também a atenção internacional.

O resultado disso é que atualmente o folclore brasileiro se encontra em uma posição privilegiada. Além de ser a base alimentadora de boa parte do turismo cultural do país, se tornou instrumento de educação nas escolas e está protegido por lei, sendo considerado um bem do patrimônio histórico e cultural do Brasil. A Constituição protege o folclore através dos artigos 215 e 216, que tratam da proteção do patrimônio cultural brasileiro, ou seja, "os bens materiais e imateriais, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira". Os órgãos estatais responsáveis pelo estudo, proteção e divulgação do folclore nacional são a Comissão Nacional de Folclore, ligada à UNESCO e ao Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura, e responsável pela elaboração da Carta do Folclore Brasileiro, e o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, ligado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Por outro lado, como se observa em outras partes do mundo, o folclore brasileiro está experimentando modificações importantes em virtude do apelo turístico, e da influência dos novos meios de comunicação de massa e das novas tecnologias de registro e difusão de informações, ocasionando a descaracterização de muitos fatos folclóricos e sua transformação em espetáculos de massa. Essa transformação cultural está obrigando os pesquisadores a rever seus conceitos e métodos de estudo dentro de uma perspectiva interdisciplinar mais ampla e mais livre de preconceitos etnocêntricos, incorporando os avanços recentes da ciência e da tecnologia.

Música
Caracteriza-se pela simplicidade, monotonia e lentidão. Sua origem pode estar ligada a uma música popular cujo autor foi esquecido ou pode ter sido criada espontâneamente pelo povo. Observa-se a música folclórica sobretudo em brincadeiras infantis, cantos religiosos, ritos, danças e festas.

São exemplos:

cantigas de roda;
acalantos;
modinhas;
cantigas de trabalho;
serenatas;
cantos de velório;
cantos de cemitério.

Danças e festas
As danças acompanham as músicas em vários rituais folclóricos, sendo as principais danças folclóricas brasileiras samba, baião, frevo, xaxado, maracatu, tirana, catira, quadrilha.

As principais festas são Carnaval, Festas juninas, Festa do Rosário, Festa do Divino, Congado e as Cavalhadas.


Linguagem
As principais manifestações do folclore na linguagem popular são as seguintes:

Adivinhações: também chamados de adivinhas. Consistem em perguntas com conteúdo dúbio ou desafiador.
Exemplo:
O que é o que é?
Está no meio do começo, está no começo do meio, estando em ambos assim, está na ponta do fim?
Branquinho, brancão, não tem porta, nem portão?
Uma árvore com doze galhos, cada galho com trinta frutas, cada fruta com vinte e quatro sementes?
Uma casa tem quatro cantos, cada canto tem um gato, cada gato vê três gatos, quantos gatos têm na casa?
Altas varandas, formosas janelas, que abrem e fecham, sem ninguém tocar nelas?
Respostas:
A letra M
Ovo
Ano, mês, dia, hora
Quatro
Olhos
Parlenda: são palavras ordenadas de forma a ritmar, com ou sem rima.
Provérbios: ditos que contém ensinamentos.
"Dinheiro compra pão, mas não compra gratidão."
"A fome é o melhor tempero."
"Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão."
"Pagar e morrer é a última coisa a fazer."
Quadrinhas: estrofes de quatro versos sobre o amor, um desafio ou saudação.
Piadas: Piada ou Anedota é uma história curta de final geralmente surpreendente e engraçado com o objetivo de causar risos ou gargalhadas (ou sensação de) no leitor ou ouvinte. É um tipo específico de humor que, apesar de diversos estilos, possui características que a diferenciam de outras formas de comédia.
Literatura de Cordel: livrinhos escritos em versos, no nordeste brasileiro, e pendurados num barbante (daí a origem de cordel), sobre assuntos que vão desde mitos sertanejos às situações social, política e econômica atuais.
Frases prontas: frases consagradas de poucas palavras com significado direto e claro.

Frases em parachoques: caminhoneiros pintam em seus pára-choques, frases do folclore brasileiro, usando o humor e a criatividade.
Trava-Língua: É um pequeno texto, rimado ou não, de pronunciação difícil. Podemos definir os trava línguas como frases folclóricas criadas pelo povo com objetivo lúdico (brincadeira). Apresentam-se como um desafio de pronúncia, ou seja, uma pessoa passa uma frase difícil para um outro indíviduo falar. Estas frases tornam-se difíceis, pois possuem muitas sílabas parecidas (exigem movimentos repetidos da língua) e devem ser faladas rapidamente. Estes trava línguas já fazem parte do folclore brasileiro, porém estão presentes mais nas regiões do interior brasileiro.

Usos e costumes
Neste campo inclui-se ítens a respeito da alimentação, cultivo, vestuário, comportamento, etc, de um povo de uma região, que tem costumes de ir a vários lugares.


Brinquedos e brincadeiras
Os brinquedos são artefatos para serem utilizados sozinho, como a boneca de pano, o papagaio (pipa), estilingue (bodoque), pião , arapuca , pandorga, etc.

As brincadeiras envolvem disputa de algum tipo, seja de grupos ou individual, como o pega-pega, bolinha-de-gude, esconde-esconde, resgate, nunca 3, pique bandera, etc.

As brincadeiras se modificam de acordo com sua região, pode ser mudar o nome ou então a forma de brincar.

Figuras do Folclore, Lendas e Mitos:

Boitatá - Representada por uma cobra de fogo que protege as matas e os animais e tem a capacidade de perseguir e matar aqueles que desrespeitam a natureza. Acredita-se que este mito é de origem indígena e que seja um dos primeiros do folclore brasileiro. Foram encontrados relatos do boitatá em cartas do padre jesuíta José de Anchieta, em 1560. Na região nordeste, o boitatá é conhecido como "fogo que corre".

Boto - Acredita-se que a lenda do boto tenha surgido na região amazônica. Ele é representado por um homem jovem, bonito e charmoso que encanta mulheres em bailes e festas. Após a conquista, leva as jovens para a beira de um rio e as engravida. Antes de a madrugada chegar, ele mergulha nas águas do rio para transformar-se em um boto.

Caipora - uma entidade da mitologia tupi-guarani. É representada como um pequeno índio de pele escura, ágil, nu, que fuma um cachimbo e gosta de cachaça.

Chupa-cabra - é, supostamente, um animal desconhecido para a zoologia que mata sistematicamente animais rurais em regiões da América, como Porto Rico, Flórida (Estados Unidos), Nicarágua, Chile, México e Brasil. O nome da criatura deve-se à descoberta de várias cabras mortas em Porto Rico com marcas de dentadas no pescoço e o seu sangue alegadamente drenado. Esta lenda moderna não é autóctone do Brasil e sim uma assimilação de lendas hispânicas divulgadas com fervor até pela mídia norte-americana.

Cuca - um dos principais seres mitológicos do folclore brasileiro. Diz a lenda que era uma velha feia na forma de jacaré que rouba as crianças desobedientes.

Curupira - Assim como o boitatá, o curupira também é um protetor das matas e dos animais silvestres. Representado por um anão de cabelos compridos e com os pés virados para trás. Persegue e mata todos que desrespeitam a natureza. Quando alguém desaparece nas matas, muitos habitantes do interior acreditam que é obra do curupira.

Lobisomem - Este mito aparece em várias regiões do mundo. Diz o mito que um homem foi atacado por um lobo numa noite de lua cheia e não morreu, porém desenvolveu a capacidade de transforma-se em lobo nas noites de lua cheia. Nestas noites, o lobisomem ataca todos aqueles que encontra pela frente. Somente um tiro de bala de prata em seu coração seria capaz de matá-lo.

Iara - Encontramos na mitologia universal um personagem muito parecido com a mãe-d'água : a sereia. Este personagem tem o corpo metade de mulher e metade de peixe. Com seu canto atraente, consegue encantar os homens e levá-los para o fundo das águas.

Mula-sem-cabeça - uma mulher, virgem ou não, que tivesse coito com um padre católico, se transformaria em Mula-sem Cabeça. Outra versão é que, se um padre engravidasse uma mulher e a criança fosse do sexo feminino viraria mula-sem-cabeça e se fosse menino seria um lobisomem.

Negrinho do Pastoreio – Lenda de um escravo negrinho que foi assassinado pela crueldade humana do seu patrão, foi chicoteado no tronco, depois colocado vivo num formigueiro, tudo porque perdeu um cavalo no pastoreio. Por isso é chamado para achar coisas perdidas.

Corpo-seco - É uma espécie de assombração que fica assustando as pessoas nas estradas. Em vida, era um homem que foi muito malvado e só pensava em fazer coisas ruins, chegando a prejudicar e maltratar a própria mãe. Após sua morte, foi rejeitado pela terra e teve que viver como uma alma penada.

Pisadeira - É uma velha de chinelos que aparece nas madrugadas para pisar na barriga das pessoas, provocando a falta de ar. Dizem que costuma aparecer quando as pessoas vão dormir de estômago muito cheio.

Mapinguari - Seria uma criatura coberta de um longo pêlo vermelho vivendo na Floresta Amazônica. Segundo povos nativos, quando ele percebe a presença humana, fica de pé e alcança facilmente dois metros de altura. Seus pés seriam virados ao contrário, suas mãos possuiriam longas garras e a criatura evitaria a água, tendo uma pele semelhante a de um jacaré.

Mãe-de-ouro - Representada por uma bola de fogo que indica os locais onde se encontra jazidas de ouro. Também aparece em alguns mitos como sendo uma mulher luminosa que voa pelos ares. Em alguns locais do Brasil, toma a forma de uma mulher bonita que habita cavernas e após atrair homens casados, os faz largar suas famílias.

Saci Pererê - O Saci-Pererê é representado por um menino negro, que tem apenas uma perna. Está sempre com seu cachimbo, e com um gorro vermelho que lhe dá poderes mágicos. Vive aprontando travessuras e se diverte muito com isso. Adora espantar cavalos, queimar comida e acordar pessoas com gargalhadas. A lenda também diz, que o Saci tem o poder de andar dentro de redemoinhos de vento, e folhas secas.
Vitória Régia


Crenças e superstições
Sabença: sabedoria popular utilizada na cura de doenças e solução de problemas pessoais através de benzeduras.

Crendice: crença absurda, também chamada de ablusão.

Superstição: explicações de fatos naturais como consequências de acontecimentos sobrenaturais.

Arte e artesanato
Compreende uma ampla área, que se estende desde a culinária até o artesanato propriamente dito. Baseiam-se em técnicas rudimentares de produção e utilizam-se de matéria-prima natural como madeira, ossos, couro, tecido ,Colchote, pedras, sementes, entre outros.


Referências
1. Frade, Cáscia. Folclore/Cultura Popular: Aspectos de sua História. UNICAMP.
2. Ribeiro, Maria de Lourdes Borges. Que é Folclore?. Anuário do Folclore, 1993. Revisado por L.F. Rabatone, 2002. In Portal Folclore Brasileiro
3. Rabatone, L. F. Folclore: Definição, Significado, Características, Legislação... Anuário do Folclore. In Portal Folclore Brasileiro
4. Cachambu, Adriane et alii. O Folclore e a Educação. Cadernos FAPA - n. 1 – 1º sem. 2005
5. Benjamin, Roberto. Folclore no Terceiro Milênio. IV Seminário de Ações Integradas em Folclore. Comissão Maranhense de Folclore. Boletim n. 21 / Dezembro 2001

Lendas Chinesas


Lendas chinesas sobre a origem do mundo

Na China, a criação explica-se através do yin e do yang, energias que se fundem para criar o Universo.

O yang é uma energia masculina, ativa, clara e ímpar; o yin é considerado o princípio feminino, em repouso, escuro e par. São representados pelas metades preta e branca de um círculo e constituem todos os aspetos da vida. No Universo, estas energias podem estar em expansão e diluírem-se, ou, pelo contrário, aproximarem-se e concentrarem-se. São simbolizadas por dois traços: contínuo para o yang, descontínuo para o yin.

Ao longo do tempo, muitas histórias e lendas foram sendo contadas em redor desse conceito, profundamente enraizado na cultura chinesa.

Existem dois tipos de lendas sobre a origem do mundo:

- sobre a abertura do céu e da terra, e a formação do mundo e todas as coisas;

- sobre a origem dos humanos, incluindo a origem das etnias.

As lendas sobre a abertura do céu (Yang) e da terra (Yin) são divididas em três tipos: 
- um ou vários deuses criaram o mundo;

- um gigante que se transforma em todas as coisas do mundo;

- o mundo nascendo da transformação da natureza.

Diversas etnias têm suas lendas sobre a origem do mundo. Na mitologia Han, é um gigante chamado Pan Gu quem cria o mundo. Depois, surgem os primeiros senhores do Céu e da Terra, cada um dando o seu contributo ao Homem. Os principais são:

- Nü Wa (Mãe da Humanidade), deusa que criou o homem e as regras de casamento.

- Fu Hsi (ou Pao Hsi) (Pai da Escrita), mítico primeiro imperador da China. É reputado por ser o inventor da escrita, da pesca e da caça.

- Shen Nong (ou Tian Zu) (Divino Lavrador), a lenda diz que o deus Jiang Shen Nong foi imperador na antiguidade. Inventou a agricultura e a medicina. É normalmente representado por dois cornos, que simbolizam a sabedoria.

Mais tarde, surge na mitologia chinesa o Imperador de Jade, chamado também de "Imperador do Céu", que é o deus mais supremo no budismo e no taoismo, e tem controle sobre todos os deuses dos três mundos: o mundo humano, o mundo celestial e o mundo subterrâneo.

Pan Gu abriu o céu e a terra

O mundo veio de uma bola cósmica, envolta em trevas, flutuando no universo. Dentro da bola, havia um espírito. O espírito foi-se desenvolvendo em silêncio, no seu interior, ninguém sabe por quantos anos, até que finalmente esse novo espírito, chamado Pan Gu, nasceu. Pan Gu vivia dentro da bola, com os olhos meio fechados, absorvendo a nutrição da bola, dormindo tranqüilamente.

Milhões de anos se passaram assim, Pan Gu cresceu e virou um gigante. Um dia, ele abriu totalmente os olhos. Mas porque se encontrava em total escuridão, Pan Gu não conseguiu ver nada. Ele pensou que o negrume em frente dos olhos fosse por que ele não tivesse acordado totalmente; limpou os olhos, mas mesmo assim não via nada. Limpou várias vezes os olhos, mas em frente dele existia somente uma escuridão sem fim. Ele ficou bravo, pulando e gritando, pedindo pela luz, batendo na bola para quebrar o mundo escuro.

Pan Gu ficava pulando e gritando, ninguém sabe por quantos anos; finalmente, seus gritos e todo o barulho que fez atravessaram a bola e chegaram aos ouvidos do Imperador de Jade no céu. Ao ouvir o barulho, o Imperador de Jade ficou muito feliz. Ele pegou um machado que tinha ao seu lado, e o jogou dentro da bola para Pan Gu.

Pan Gu, pulando e gritando, de repente, viu um fio de luz quando o machado atravessou a bola. Ficando surpreendido, ele alcançou a mão para tocar a luz. Ao mesmo tempo, o machado chegou e caiu na sua mão. Sentindo que alguma coisa tinha caído na mão, ele deu uma olhada: era um machado. Mesmo não sabendo de onde veio o machado, ele ficou muito feliz e decidiu quebrar a escuridão com o machado.

Com a primeira machadada, Pan Gu ouviu um barulho enorme, tão forte que pareceu quebrar tudo. Uma racha apareceu na bola, e uma luz brilhante veio de fora. Ele ficou tão alegre que por momentos, se deteve, exclamando sua emoção. Mas subitamente, viu que a racha ia-se fechando e a luz sumindo. Ele jogou o machado no chão e empurrou a parte de cima da bola para manter a racha, e a luz.

Sabendo que, se desistisse, a bola fecharia de novo e ele perderia a luz, Pan Gu ficou sustentando a parte de cima com muita força. As juntas dos seus ossos começaram a estalar, Pan Gu estava crescendo. Todos os dias, ele crescia um Zhang (medida chinesa, 1 Zhang = 3 metros), e a racha aumentava um Zhang. Muitos anos se passaram, Pan Gu chegou à altura de 18 milhas de Zhang, o mesmo acontecendo com a racha.

Ao ver que os dois lados da racha ficaram suficientemente afastados um do outro, não podendo mais fechar, Pan Gu sentiu-se aliviado, e começou a dar uma olhada ao redor dele: a escuridão em cima tinha virado o céu, mudando a cor para azul claro; a escuridão, em baixo, mudou para terra grossa, de cor amarela-marrom. Olhando para o céu azul claro, tão grande que parecia não ter fim, e a terra amarela, grossa e ampla, Pan Gu sentiu-se muito alegre: a escuridão tinha-se retirado e a terra estava coberta pela claridade. Ele começou a rir.

Ele riu tanto que, de repente, teve um colapso e seu grande corpo caiu no chão. Pan Gu havia morrido. Mas, na verdade, ele não morreu. Seu corpo brilhou e as partes da sua essência física começaram a se transformar.

O seu olho esquerdo voou para o leste do céu, e virou o sol brilhante que ilumina tudo. O seu olho direito voou para o oeste do céu e virou a lua terna. A sua respiração transformou-se no vento da primavera que acorda a Vida e nas nuvens que flutuam no céu; a sua voz, no raio que ilumina as nuvens escuras com um trovão ensurdecedor. Seus cabelos e barba voaram em todos os sentidos e viraram florestas densas, ervas prósperas e flores coloridas. Seu suor atingiu o céu e virou estrelas brilhantes. Seus braços e pernas se estenderam e formaram montanhas. Suas veias tornaram-se caminhos serpenteando a terra, onde seu sangue fluiu, formando os rios. Seus dentes e ossos se espalharam e viraram metais brilhantes; jades brancos, pérolas cintilantes, ágatas lindas e tesouros abundantes. Da sua saliva, surgiu a chuva que umedece a terra. O que restava da vida em seu espírito virou lentamente em bichos, peixes, pássaros e insetos, e trouxe vitalidade para o mundo.

Usando seu corpo e seu espírito, Pan Gu criou o mundo.

Nü Wa criou os humanos

Nü Wa é uma deusa que nasceu da terra.

Um dia, ela estava andando no campo, e olhou para as montanhas onduladas, os rios correntes, as florestas densas; viu que os pássaros estavam cantando e voando no céu, os peixes estavam brincando na água, os insetos estavam pulando na grama, o mundo era lindo. Mas Nü Wa se sentia muito sozinha e infeliz, nem ela sabia porquê.

Ela exprimiu sua solidão para as montanhas e as florestas, mas elas não a entenderam; ela contou seus pensamentos para os bichos e pássaros, mas eles não a entenderam. Sentando-se na beira de um lago e olhando para sua sombra na água, Nü Wa sentiu-se muito desapontada.

Uma brisa ligeira passou, uma folha caiu na água e causou ondulações leves, a sombra de Nü Wa ficou oscilando na água. De repente, Nü Wa percebeu que lhe faltavam vidas iguais como ela.

Pensando nisso, ela pegou um pouco de lama amarela na beira do lago, amassou-a, e formou uma figura semelhante à sua sombra na água. Era uma figura pequena, com uma cara parecida, tendo duas mãos e dois pés. Quando ela colocou a figura no chão, a figura ganhou vida. Nü Wa ficou muito feliz, ela continuou fazendo muitas figuras, e chamou-lhes "humanos", moldando tanto homens como mulheres.

Porque os humanos foram criados simulando a aparência da deusa, eles receberam disposições e comportamentos diferentes de outras vidas. Eles sabiam falar a mesma língua de Nü Wa. Eles conversaram com ela, aplaudiram ao redor dela, e depois, saíram do seu lado e se espalharam.

O coração solitário de Nü Wa ficou muito feliz. Ela ficou com vontade de tornar o mundo mais animado com muitos humanos. Então, continuou trabalhando em fazer figuras. Mas o mundo era tão grande. Mesmo trabalhando muito até ter os dedos entorpecidos, o mundo ainda continuava muito vazio. Pensando que assim não adiantava muito, Nü Wa pegou uma vinha de uma árvore, molhou-a com lama e jogou-a no chão. As gotas de lama bateram no chão, e viraram em figuras parecidas que as que Nü Wa fez à mão. Nü Wa ficou jogando a vinha e espalhou os humanos para todos os lugares do mundo.

Depois de criar bastantes humanos, Nü Wa ficou contente. Ela decidiu fazer uma pausa e passear um pouco para ver como as pessoas viviam.

Um dia, ela chegou num local e descobriu que havia pouca gente ali. Ela achou isso muito estranho e ficou procurando. Aí, descobriu que muita gente estava deitada no chão, sem movimento algum. Ela chegou a tocar nos corpos, mas nada aconteceu: foram as primeiras pessoas que Nü Wa criou, estavam agora com cabelos brancos e tinham morrido.

Ao ver isso, Nü Wa ficou muito preocupada: ela tinha trabalhado tanto, mas as pessoas envelheciam e acabavam por morrer. Se ela quisesse um mundo com pessoas, ela teria de criar humanos sem parar.

Então, dirigiu-se ao templo de Pan Gu, e pediu ao deus para que ela pudesse ser a casamenteira dos humanos. Ela recebeu essa permissão e aí mandou os homens e mulheres reproduzirem-se entre si, para terem descendência. Porque os humanos são criaturas geradas à imagem da deusa, sendo diferenciados dos bichos, Nü Wa criou também o sistema de casamento para eles.

E Nü Wa, tendo criado a raça humana, tornou-se também sua casamenteira, como forma de perpetuar os seres humanos na Terra.

Zhao Gu Niao - o pássaro que procura a cunhada - O Cuco

Muitos anos atrás, havia uma mulher velha, ela tinha um filho e uma filha. O filho se casou, e pouco tempo depois do casamento, ele saiu da casa para fazer negócios. A velha vivia com sua filha e sua nora, mas ela gostava somente da filha e tratava a nora muito mal.

Olhando para a filha, ela sempre falava: "Minha filha, coma mais um pedaço de panqueca, tome mais sopa de arroz."

A filha sempre dividia a panqueca com a cunhada, mas a velha se virava e falava para a nora: "Você come tanto, toma tanto, nunca tenho suficiente para você."

E o problema para a nora não era somente a falta de comida e de roupa, a velha batia nela e a maltratava com freqüência.

Uma vez, a velha criou muitos bichos-de-seda, tantos que não dava para contar. Toda madrugada, a velha forçava a nora a subir os montes para colher folhas de amoras para alimentar os bichos-de-seda. Dia a dia, as amoreiras no monte estavam ficando sem folhas.

Mas os bichos-de-seda cresciam muito e exigiam cada vez mais comida. Em abril, os corpos deles começaram a brilhar, eles estavam quase prontos. A nora espalhava uma camada de folhas de amoras em cima dos bichos-de-seda, "Xa...xa...xa...", as folhas acabavam; ela espalhava uma outra camada, "Xa...xa...xa...", as folhas acabavam...

Um dia, a velha sogra maltratou de novo a nora: "Uma nora é igual a um cavalo que a gente compra, pode andar no cavalo, pode bater nele, como quiser. Se hoje você não voltar com suficientes folhas de amoras, vou bater em você."

A velha viu bem que a nora saiu da casa, ela se virou, e viu que a filha estava trabalhando nos bichos-de-seda. Ficou com muita pena, e falou: "Minha boa menina, descanse! Deixe as coisas para sua cunhada. Você tem fome? Está com sede? Tenho ainda panquecas e sopa de arroz para você."

A filha da velha era muito linda, mas sendo diferente da mãe, ela tinha um bom coração. Ela amava sua cunhada e tinha muita pena dela. Ouvindo o que a mãe disse, ela respondeu: "Sou um ser humano igual a minha cunhada, por que não posso fazer as coisas, e tenho de deixá-las para minha cunhada!"

A velha ficou muito brava por que a filha não obedeceu. Queria bater nela, mas já sentiu dor dentro de si quando pensou nisso; queria maltratá-la, mas já ficou com pena antes de abrir a boca. Ficando brava, mas sem saber o que a fazer, batendo as mãos, e ela saiu de casa.

A nora subiu os montes, andou procurando amoreiras. Meio dia se passou, ela achou somente algumas folhas. O sol já estava bem alto sobre a sua cabeça, a nora se sentou no chão e começou a chorar.

Em casa, a filha tinha terminado seu trabalho, e ficou preocupada com a cunhada, pensou: "Não me sinto normal hoje, meu coração bate tão rápido, talvez minha cunhada esteja com fome, talvez ela esteja se sentindo mal." Ela pegou algumas panquecas, levou um copo de sopa de arroz, e subiu o monte.

Logo ela via que sua cunhada estava chorando ao lado do caminho, ela chegou perto e pegou a mão da cunhada e falou: "Minha irmã, não chore. Se você está com fome, trago panquecas para você; se você está com sede, tenho sopa de arroz."

A cunhada chorou: "Minha irmãzinha, se eu estivesse com fome, poderia comer ervas comestíveis; se eu tivesse sede, poderia tomar a água do rio. Mas ando pelos montes, e vejo somente carvalhos. Se não achar suficientes folhas de amoras, como mamãe vai me receber!"

A filha da velha limpou as lágrimas da cunhada, penteou os cabelos dela, e disse: "Minha irmã, não chore. Coma as panquecas, tome a sopa, aí a gente procura juntas." Ela forçou a cunhada a comer um pedaço de panqueca, a tomar um pouco da sopa, e a acompanhou na procura.

Elas atravessaram os rios, e andaram por todos os montes, mas não encontraram nenhuma amoreira, o que elas viram, eram só carvalhos.

Vendo que o sol estava se pondo, a nora disse: "Minha boa menininha, a noite está caindo, os lobos estão saindo das cavernas, os tigres estão vindo. Você vai para casa."

A filha respondeu: "Minha irmã, a noite está caindo, os lobos estão saindo das cavernas, os tigres estão vindo. Você vai comigo para casa."

A nora olhou no cesto vazio e disse: "Sua irmã vai esperar aqui. Talvez o Deus do monte tenha pena de mim e torne os carvalhos em amoreiras."

"Vamos esperar juntas. Talvez o Deus do monte tenha pena da gente e torne os carvalhos em amoreiras."

Elas continuaram procurando no monte, mas viram somente carvalhos, sem amoreiras.

O sol se pôs atrás do monte.

A noite caiu.

A lua subiu por cima das árvores.

O cesto estava vazio, a nora começou a chorar.

O vento estava soprando, a água do rio estava cantando.

De repente, a filha levantou a cabeça e gritou para o monte: "O Deus do monte! Se você tornar os carvalhos em amoreiras, vou me casar contigo!"

As folhas dos carvalhos começaram a se bater.

A filha gritou de novo: "O Deus do monte! Se você tornar os carvalhos em amoreiras, vou me casar contigo!"

Os carvalhos estavam fazendo mais barulho ao vento.

A filha já se decidiu e gritou de novo: "O Deus do monte! Se você tornar os carvalhos em amoreiras, vou me casar contigo!"

Depois do terceiro grito da filha, começou de repente um turbilhão; o céu se cobriu de nuvens, e a terra escureceu. As folhas das árvores estava fazendo muito barulho.

Um momento depois, o vento parou, a lua brilhou de novo, os montes estavam cobertos de amoreiras, e sumiram todos os carvalhos.

As duas moças ficaram tão felizes e começaram a pegar as folhas das amoreiras. As folhas eram tão grandes, toda folha tinha o tamanho da mão. Logo o cesto ficou cheio. Elas carregaram o cesto e desceram o monte.

A velha estava se preocupada em casa, porque não achava mais sua filha. Vendo que a filha estava voltando, ela ficou tão feliz como se tivesse encontrado uma grande riqueza. Apesar da nora voltar com bastante folhas de amoras, a velha ficou muito brava com ela e disse que ela não poderia levar sua filha. Finalmente, a velha mandou a nora cuidar dos bichos-de-seda à noite e ela nem pôde dormir.

No dia seguinte, a nora subiu o monte de novo para pegar folhas de amoras, a filha da velha levou de novo panquecas para ela. Os montes estavam cheios de amoreiras, não se via mais nenhum carvalho.

Alguns dias depois, os bichos-de-seda fizeram casulos.

Um dia, quando a filha e a nora estavam trabalhando nos casulos, uma grande nuvem preta veio do noroeste, e seguindo a nuvem, um forte vento escuro. As arvores estava balançando, tanto que puxaram as raízes para fora da terra. O vento chegou perto, levantou o telhado, e pegou a filha.

A nora ficou chocada. Ela pulou no vento escuro e procurou sua cunhada. Os ramos das árvores caindo batiam no seu corpo, as pedras levantadas pelo vento machucavam suas mãos. Ela caiu muitas vezes no chão, mas ela se levantou, continuou correndo atrás do vento e gritou: "O Deus do monte, deixe minha cunhada!"

O vento escuro entrou nos montes, a nora o seguiu nos montes. Mas as amoreiras bloqueavam sua vista. De repente, o vento sumiu.

A nora ficou nos montes procurando, os sapatos se gastaram.

A nora ficou procurando, de dia, de noite, suas roupas se rasgaram pelas árvores.

O verão passou, veio o outono; o outono passou, o inverno estava chegando. Todas as ervas nos montes sabiam que a nora estava procurando sua cunhada, elas puseram suas folhas no chão para proteger os pés da nora. Todas as árvores dos montes sabiam que a nora estava procurando sua cunhada, elas baixavam os ramos para que suas frutas ficassem mais perto da nora. Todos os pássaros nos montes sabiam que a nora estava procurando sua cunhada, eles tiravam suas penas e as jogavam para a nora, para que ela pudesse passar o inverno quentinha. As penas voavam ao redor da nora, levemente, bem com a neve; finalmente, elas cobriram a nora completamente.

No dia seguinte, veio o vento frio do inverno. A nora já virou um passarinho belo, coberto por tantas penas belas. Ela voava sobre os montes e cantava: "Zhao Gu! Zhao Gu!" (Zhao Gu significa "procuro a cunhada".)

O inverno frio passou, a bela primavera chegou de novo. O belo passarinho voava em cima das amoreiras e cantava: "Zhao Gu! Zhao Gu!"

Ela passava pelo pomar florido e cantava: "Zhao Gu! Zhao Gu!"

Ela passava pelos campos verdes, voava abaixo das nuvens brancas da primavera, e cantava o tempo todo: "Zhao Gu! Zhao Gu!"

Meses passaram, anos passaram, todas as pessoas sabiam que ela estava procurando a cunhada. As pessoas ficavam com muita pena dela, e a chamava de Zhao Gu Niao - o pássaro que procura a cunhada, que é o Cuco.

(minhachina.com)


VIRTUÁLIA - O Manifesto Digital: LENDAS LUSITANAS

http://virtualiaomanifesto.blogspot.com/2008/12/lendas-lusitanas.html


Portugal é o país mais ocidental da Europa, sendo também um dos mais antigos em suas fronteiras.

A conquista do território foi feita aos muçulmanos (chamados de mouros), que dominaram a península Ibérica por quase mil anos. Antes da formação da nação portuguesa, vários povos habitaram o lugar, entre eles os lusitanos, pescadores e camponeses primitivos, que enfrentaram bravamente o domínio e a opressão dos romanos.




Sendo um país tão antigo, foram muitas as lendas que se criaram para contar tão extensa história. Lendas medievais, lendas ainda mais antigas; chegaram aos nossos dias as mais belas narrativas que contam a saga de um povo e da sua nação, formadora de uma cultura lingüística que se estendeu pelos quatro cantos do mundo. Da antiga Lusitânia ao Portugal de hoje, chaga-nos um acervo de personagens maravilhosas, algumas trazidas das páginas de Homero, outras do imaginário medieval, das páginas cantadas pelos trovadores.
“Olisipo, a Cidade de Ulisses” é uma das lendas mais cultivadas pelo povo português. É a história da fundação de Lisboa, que segundo a tradição lendária, teria sido feita pelo herói homérico Odisseu (Ulisses), que na sua trajetória errante após o fim da guerra de Tróia, perder-se-ia por vinte anos pelos mares europeus. O herói grego teria atravessado as Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar), alcançando a desembocadura do rio Tejo, deparando-se com o reino de estranhas criaturas metade mulheres, metade serpentes. Olisipo, a cidade mítica de Ulisses, seria mais tarde Lisboa, a bela capital portuguesa.
“A Dama Pé de Cabra” resgata o período de conquista das terras lusitanas aos muçulmanos, chamados de mouros. A luta por esta conquista foi sangrenta, o que fazia o povo cristão a sentir que efetuava uma guerra santa, cada mouro morto por sua espada, significa recompensa na terra e nos céus medievais. Esta lenda traz a figura do diabo, tão temida e tão comum no cotidiano do homem medieval. Entre as guerras e os medos dos demônios, surgia uma nação jovem, cristã e destinada à expansão através do mundo.
“O Galo de Barcelos” retrata um dos símbolos mais populares de Portugal. Várias são as versões da lenda, mas todas elas remetem para um único final: a ressurreição de um galo assado, que com o seu canto vivo efetuaria a justiça e repararia a injúria diante dos injustiçados. É uma lenda sucinta, mas com forte teor de se ver através dela o cumprimento de todas as leis, fundindo-se entre as leis sacras e as leis dos homens, tornado-se um uno inquestionável.
Três lendas de beleza universal, que nos remete para diversos momentos de uma história imaginária e repleta de aventuras seculares, que fariam dos lusitanos grandes navegadores e descobridores de mundos diversos, infinitos aos olhos humanos.




Olisipo, a Cidade de Ulisses

Há muito tempo atrás, em um ponto remoto do calendário, existia um promontório que recebia o desembocar do Tejo. Era um reino inóspito, muito além das Colunas de Hércules, conhecido pelo nome de Ufiusa, a terra das serpentes. Este reino formado por serpentes, tinha como rainha um estranho ser, metade mulher, metade serpente, que trazia um rosto belíssimo, dona de um olhar feiticeiro e de uma voz quase de criança.
Senhora absoluta do seu reino, a rainha mulher-serpente costumava visitar o alto de um monte e gritar ao vento as palavras que ecoavam por todo o Tejo:
-Este é o meu reino! Só eu governo aqui, mais ninguém! Nenhum homem atrever-se-á pôr aqui os pés. Ai do que ousar! As minhas serpentes não o deixarão respirar um só minuto!
Assim correram os anos. Até que um dia surgiu errante, com os ventos, o grego Ulisses (Odisseu). O rei da Ítaca, herói da Tróia destruída, tão logo terminara a guerra, por um capricho dos deuses, navegava perdido pelo Mediterrâneo sem fim. Um dia os barcos de Ulisses foram soprados para muito além das Colunas de Hércules, vindo a entrar pela desembocadura de um imenso rio ao qual chamavam de Tejo, aportando no reino de Ufiusa. Tão logo chegou àquelas terras, o grego deslumbrou-se com a sua beleza, com a suavidade das suas brisas, o sabor das suas frutas e o gosto doce das águas do Tejo. Ofuscado por tanta beleza, Ulisses reuniu os seus homens, declarando potente a todos eles:
-Aqui, onde a natureza mostra-se tão pródiga, edificarei a mais bela cidade do mundo! Dar-lhe-ei o meu nome... será Ulisseia, capital das belezas do mundo!
Assim foram edificados os primeiros alicerces da sua cidade. Mas a terra que tanta beleza trazia aos olhos do grego, mostrou-se traiçoeira diante das serpentes que deslizavam por elas. Muitos dos homens da tripulação tombaram envenenados por picadas das serpentes, outros desapareciam, vitimados por armadilhas traiçoeiras. Cada vez mais o inimigo oculto ladeava Ulisses. Diante de estranhos inimigos, o valente rei da Ítaca clamou:
-Por todos os deuses do Olimpo, eu vos desafio, inimigo invisível e traiçoeiro. Aparecei das sombras, mostrai a vossa face e desafiai-me corpo a corpo!
Mas o inimigo continuou oculto, Ulisses só continuava a ouvir os silvos das serpentes, que vinham como uma sinfonia noturna. Assim o perigo rondava Ulisses e os seus homens, que cada vez mais tombavam envenenados. Irritado, Ulisses bradou com todas as suas forças:
-Traiçoeiro inimigo, podeis tentar tudo o que quiserdes, mesmo assim não abandonarei esta terra sem aqui deixar a mais famosa cidade edificada que se tenha notícia!
Foi então que a rainha das serpentes, profundamente atraída pelo valente guerreiro, revelou-se a ele. Surgiu do disfarce de uma rocha, com a sua voz de criança e formosura na sua face de mulher, escorregadia na sua metade serpente.
-Bem vindo ao reino das serpentes, conhecido por Ufiusa! Sois valente e ousai a enfrentar aos súditos deste reino, do qual sou a rainha soberana e absoluta!
Ao ver a revelação da rainha, Ulisses apercebeu-se da face do misterioso inimigo, finalmente revelada. Uma vez revelado-lhe o inimigo, o grego já não o temia. Viu na voz doce da mulher o sibilar das serpentes, refletida no olhar amargo.
Já apaixonada por Ulisses e por sua valentia, a rainha percebeu que a sua rendição não iria acontecer. Não mais esperava por ela, pelo contrário, decidira que queria o guerreiro para sempre em seus reinos.
-Durante dias esperei por vossa rendição. A vossa coragem foi superior, o que atraiu a minha admiração! Sei do vosso sonho de aqui edificardes uma cidade! Pois bem, eu vos permito a realização desse sonho, com uma condição: a de cá ficardes para sempre!
Enigmático, Ulisses sorriu-lhe, sem jamais lhe dar uma resposta com palavras, meneando a cabeça, como se concordasse. Com o consentimento da rainha das serpentes, Ulisses passou a edificar a sua cidade, erguendo-se jardins, casas e ruas. As serpentes já não atacavam os homens, que cada vez mais ali aportavam. Enquanto os homens trabalhavam, as mulheres serpentes cantavam para que a labuta lhes fosse mais suave.
Erguida a cidade de Ulisses, que passou a ser conhecidas como Olisipo, uma brisa suave inundou tão soberba obra. Mas o coração de Ulisses pertencia a Ítaca e a Penélope, a sua mulher, que há muitos anos esperava por sua volta. Assim, mesmo deslumbrado com a sua obra, o grego só pensava em partir, navegando até que aportasse na sua terra natal. Mas a paixão da rainha serpente impedia que Ulisses partisse, tornando-o prisioneiro da sua própria cidade.
Sabendo-se prisioneiro da rainha, Ulisses encheu-se dos mais falsos carinhos e de amor ardente e traiçoeiro, enquanto desenhava o seu plano de fuga. Por fim chegara a noite da tão esperada fuga. Combinara buscar a rainha para um passeio ao luar. Em vez de comparecer ao encontro, Ulisses enviou um dos seus homens, que tinha a mesma estatura do que ele e ao longe, poderia ser confundido com ele. Assim, enquanto Ulisses fugia navegando pelas águas do Tejo em direção ao Oceano, o seu fiel companheiro, muito bem disfarçado, foi buscar a rainha, levando-a para longe do rio.
Durante o passeio, só a rainha falava, mostrava para o companheiro o futuro da sua Ulisseia, ou Olisipo. De repente a mulher inquietou-se com o silêncio do amado. Ao olhar para aquele que estava ao seu lado, percebeu que os olhos eram outros. Ao perceber o engano, a rainha soltou um grito de indignação. Ao ver-se traída, furiosa, ela mordeu o impostor, envenenando-o com a sua peçonha. Antes de morrer, o infeliz murmurou que o seu amo já deveria ir longe, a navegar pelo grande Mar Oceano, rumo às terras gregas.
Desesperada, a rainha tentou ir além de todas as suas forças, estendendo-se sobre a cidade de Ulisses, na ânsia asfixiante de alcançar o mar. Foi tamanho o seu esforço de alcançar o amado, que onde ela estendeu o corpo de serpente, das suas contorções desenhou-se sete colinas sobre Olisipo. Mas Ulisses já estava longe, e a infeliz rainha não resistiu, morreu após tamanho esforço.
Sem a sua rainha, as serpentes fugiram da cidade. No antigo reino de veneno e morte, ficou edificada altaneira, a cidade de Ulisses, erguida sobre as suas sete colinas. Ulisses jamais retornou, mas Olisipo tornou-se a principal cidade às margens do Tejo. Muitos anos mais tarde a cidade de Ulisses passou a ser conhecida como Lisboa.